Existem condições para um levante no Brasil atual?

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*Júlio Prates

 O excelente currículo de Alex Fiuza de Mello, Professor Titular de Ciência Política da Universidade Federal do Pará, Mestre em Ciência Política (UFMG) e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP), com Pós-doutorado em Paris (EHESS) e em Madrid (Cátedra UNESCO/Universidade Politécnica) e Reitor da UFPA (2001-2009), encorajou-o a produzir um breve ensaio sobre eventual risco de levante popular no Brasil.

 

O texto é pertinente, enriquece o debate e merece ponderações.

 

Sempre que um texto dessa natureza emerge, existe uma certa confusão – dentro da esquerda e da direita – dos nossos desejos pessoais com a realidade objetiva e subjetiva de um processo revolucionário. O termo levante é perigoso, soa anarquismo, mas é o que melhor se coaduna com a realidade nacional.

 

A tese epicentral do texto do abalizado professor denota um processo – de conotações populares – que brotaria contra os poderes da república, um, mais em especial.

 

Até aí nenhuma novidade.

 

Estudei algumas revoluções: a francesa, a gloriosa, a americana, a russa, a chinesa e a cubana. É claro, por alto acompanhei os casos de El Salvador, México e Nicarágua …

 

Todo e qualquer processo revolucionário num determinado país deve – sim – levar em consideração as condições tradicionais: objetivas e subjetivas, ambas com suas variâncias.

 

Do exemplo recente da primavera árabe, passando pelo que está ocorrendo em Cuba, a comunicação social e a força das redes sociais, tem sido elementos novos jogados no debate tradicional, eis que ausentes de Mao a Fidel, de Rousseau a Lenin … a brevidade da comunicação instantânea da telemática.

 

Ademais, qualquer processo revolucionário deve levar em conta as insatisfações populares, capazes de mobilizar as multidões, bem como elementos catalizadores capazes de captar os sentimentos que insuflariam os povos.

 

Em outras palavras: uma revolução precisa de razões, lideranças e sentimentos populares. Isso implica em causa política, unidade nacional e políticos capazes de chamar essa mobilização.

 

Maio de 1968, na França, é um exemplo clássico de mobilização com causa, que uniu o movimento estudantil ao operário. Ademais, tinham bandeiras mobilizatórias, lideranças aparentes (apesar do racha entre os libertários proudhonianos e os marxistas estalinistas) e tudo, aqui – sim – um fator fortemente determinante – a geopolítica do país, que já houvera vivido o êxito de 1789/1799, quando da tomada da Bastilha e da decapitação geral da família real. Aliás, o exemplo francês, foi seguido a rigor, por Lenin e os bolcheviques de 1917, contra a dinastia do czar Nicolau II, onde até as crianças foram mortas e queimadas, para sequer deixar rastros.

 

Um breve salto na história.

 

É claro que as revoluções iluministas tinham um ideal: por fim aos domínios reais, apesar da enorme contradição verificada na Inglaterra, de 1688 a 1689, onde estava presente uma imbrincada questão religiosa com o povo protestante governado pelo rei Jaime II, sabidamente católico.

 

De qualquer forma, a República estava na pauta e, da  França, o sentimento se espalhava fortemente e estendeu-se a independência das 13 colônias inglesas da américa do norte, 1775 a 1783 – inclusive – que acaba contaminando nosso país, em 1789, com a inconfidência mineira. É claro que as ideias foram as mesmas.

 

Em suma, necessário se faz esse pequeno retrospecto, para embasar o entendimento de que uma revolução ou levante precisa de uma causa capaz de mobilizar as massas populares, um comando estribado em ideias, organização nacional e a necessária geopolítica, embora os exemplos da China, Rússia e EEUU desafiem a lógica de Golbery.

 

E pergunta que não quer calar?

 

Existe um sentimento de unidade nacional em nosso país? Ou uma causa que unifique os anseios populares?

 

Sem paixões: NÃO.

 

A fragmentação da sociedade brasileira criou verdadeiras castas, mesmo dentro de um mesmo setor, pensando como Bordieu. O pensamento de setor, a rigor, é muito mais brando que a análise de classe.

 

É ingenuidade achar que se pode mexer no STF sem mexer em toda a estrutura do poder judiciário. A superestrutura jurídica, no Brasil, gerou um fenômeno às avessas, pois conseguiu interferir e mudar a própria infraestrutura econômica, e o melhor exemplo veio da lava-jato, do MP e a análise é corroborada pela própria esquerda.

 

O poder judiciário, embora José Dirceu negue sua legitimidade, e reconheça legitimidade apenas no executivo e legislativo, não se constitui em um problema substancial a ponto de gerar um levante popular. Sequer existem debates e reflexões acerca de sua legitimidade. Agora, paixões, cartazes, gritos e faixas, como se verificam nos protestos bolsonaristas, são sentimentos nitidamente identificados e altamente minoritários.

 

Os militares, única força com expressão nacional e unidade mobilizatória, navegam em céu de brigadeiro com seus soldos robustos, vida mansa, famílias estáveis, e muito mais preocupados com carros, futebol, mulheres … do que entender o poder judiciário, sequer sabem o que é a superestrutura jurídica. Essa é a grande realidade.

 

O enfrentamento mídia, STF, parlamento x militares é uma guerrinha de bolinhas de papeis, dessas que crianças fazem no ensino primário. Brigam, tiram notas (notinhas de repúdios) mas se retroalimentam, pois um depende do outro.

 

Problema existiria, se houvesse um sentimento nacional contra as dissiparidades do setor público contra o setor privado. Mas, o setor privado está totalmente desmobilizado, os trabalhadores não tem referência em partidos e nem em organizações sindicais. Nem a UNE existe mais, capaz de insuflar um pensamento crítico. O agronegócio vive seu auge, como nunca em nossa história.

 

As corporações do setor público, além de viverem o gozo da estabilidade, só falam em nome da sociedade, em fragmentos discursivos … para defender seus próprios interesses; mentem e acreditam na própria mentira. A esquerda e a direita no Brasil não têm estudos e nem reflexões sobre o abismo criado no país entre os setores organizados do setor público com suas corporações classistas com o setor privado, que do operário ao dono de uma média loja, todos ardem os mesmos males.

 

Sem organização, sem mídia dominante, sem organização com estrutura nacional (exceto FFAA), sem a criação de um sentimento nacional, sem ideologia, sem unidade de um pensamento nacional, e aqui pesa enormemente a geopolítica brasileira, um levante na avenida paulista, outro em Copacabana e outro na Esplanada dos ministérios, terminaria antes da dez da noite. Soa piada.

 

A direita no Brasil não tem organização mínima, sequer um partido político. Sem organização, sem lastro teórico, aliás, Olavo de Carvalho sempre apontou nessa direção ao falar em guerra cultural (embora seu conceito seja gramsciano), existe uma tênue unidade convergente de pensamento religioso, vagos discursos em defesa da família, um núcleo de pensamento liberal inserido junto com a direita interventora e o produto resultante disso é uma simples confusão.

 

Custo a admitir, mas a tese do anarco-capitalismo nunca fez tanto sentido e com tanta lógica como nos dias atuais.

 

A esquerda, que já viveu seu auge, também é altamente rachada, não só em partidos, como em pensamento. Primeiro, sempre foram interventores e sempre apostaram no favorecimento e fortalecimento do setor público. A esquerda nunca se preocupou em minimizar as distâncias entre o setor público nacional e o privado, aliás, pior, sempre jogaram para os setores públicos organizados e seus lobbys poderosíssimos. Todas as análises dos setores de esquerda são uníssonos ao reconhecer que os méritos da lava-jato, com sua superestrutura jurídica ao suplantar infraestrutura econômica, reconhecem também, pari passu, uma inversão na própria estrutura leninista de poder, eis que aqui a economia foi determinada pelo Direito, o que é um tanto frankensteiniano, falando em ciência política.

 

Resumo da opereta bufa, não existe confronto de classe no Brasil, não existem forças capazes de fazer um levante nacional unificado, não existem teorias e nem teóricos, não existem revolucionários, nem de esquerda e nem de direita (embora existam pessoas com pensamento revolucionário na esquerda e na direita), mas representam pensamentos díspares.

 

O próprio governo Bolsonaro tem -sim – uma base de apoio e é sempre mal analisada pela esquerda, essas vão do sentimento militar as forças evangélicas e católicas carismáticas. Mas, reconheçamos, são forças anárquicas, em se tratando de encarar a política enquanto ciência.

 

Não sejamos tolos. A modernidade científica e tecnológica engendrou novas realidades, especialmente na telemática. Esta serve para Cuba? Sim, serve. Mas a resposta está na geopolítica, razão pela qual não serve para o Brasil.

 

A suposta crise do Brasil é uma crise artificial. São apenas arroubos de setores corporativos contrariados. A esquerda e a mídia insuflam essa CPI, por exemplo. Mas ninguém confia nos próprios integrantes da CPI. Começa por aí.

 

E assim vamos indo. Guerras de epítetos: presidiário, cachaceiro, genocida, rachadinha, morceguinhos e morcegões e lá sei vai o ano de 2021, com muitas trocas de notas, notinhas e notões.

 

Nada é sério.

 

Não há condições subjetivas e nem objetivas para levantes no Brasil. Ao menos, por enquanto. E isso pode durar muito ainda.

* Sociólogo e Advogado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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