Crônica do dia 30 de junho de 2010

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Confissões intimistas de um dia de crise

Às vezes, quando descubro-me em crise, encerro-me num quarto escuro, deito-me com a cabeça tapada, coloco um CD de Bach e deixo repetir várias vezes. Sim, estou em crise, mas é uma crise diferente de todas as outras, é contraditória. Só dialeticamente sei discernir aspectos e nuanças dessa última e suas peculiaridades.

Por um lado, experimento a sensação ímpar de viver emoções que transbordam amor. De outro, afloram questionamentos internos avassaladores acerca da minha conduta enquanto agente da escrita e produtor de reflexões.

Sobre o amor, confesso que era um tanto inexperiente, apesar de ser um homem de meia idade. O amor homem e mulher, mesmo querendo ser um enquadramento mecânico à Fromm, que me parece o mais óbvio, já conhecia começo, meio, fim, sínteses, teses e tudo mais, embora meu amor intersexual com a Eliziane seja algo totalmente diferente de tudo o que já tinha vivido. Lizi é uma pessoa de alto caráter, uma pessoa de índole boa, avessa a maldades, um coração puro e uma mente limpa. Quantas vezes, em minhas auto-análises, conclui que não a merecia. Sim, é verdade. Conheço-me. Sem ser dantesco, mas sendo para ilustrar o texto, acho-me um pouco diabinho. Mas, enfim, o amor carnal e espiritual de minha alma resistiu bem ao tempo – 8 anos – e minha relação com a Lizi não entrou em crise.

Contudo, com o nascimento da Nina, passei a experimentar uma outra condição amorosa, passei a viver um outro tipo de amor, um outro conjunto de sensações, vibrações e emoções. É tudo totalmente diferente, fiz-me magicamente diferente. É difícil explicar, mas Nina fez-me transbordar de emoções e sensações quase indescritíveis.

Talvez o meu amigo Bactéria tenha sido a pessoa que melhor descreveu a situação ao dialogar comigo: tu ganhou um tesouro.

Tesouro, tesouro, tesouro.

Essa palavra é certa para exprimir as sensações que vivo. E faz sentido.

Eu sou um dos poucos santiaguenses que até hoje nunca comprei um bilhete lotérico. Não jogo por uma razão bem intimista minha e pouco acreditável: eu não desejo ter milhões. Gosto da minha vida como ela é, não quero ser rico, quero ter o básico para viver, mas nunca ter milhões. Sou um socialista diante da vida e jamais viveria bem faustosamente enquanto visse o drama desigual e mortífero das pessoas que vivem ao meu redor. Sempre trabalhei para ter o básico para viver e sempre estudei para dar o melhor por uma causa que eu acredito: criar condições de uma vida social justa para a sociedade. Jamais para mim. Não sou indiferente ao drama dos despossuídos, embora não os use como trampolim. Tenho uma convicção intima forte, muito forte dentro de mim, acerca dos valores e juízos sociais como me coloco diante das pessoas e da sociedade.

Ao ensejo desses juízos é que Nina representou – para mim – o maior de todos os tesouros, pois aquele pinguinho de gente na palma de minha mão, aqueles olhinhos, aquele rostinho, provocam-me as melhores sensações e mais vibrantes emoções as quais já vivi até os dias atuais.

Diria até que sou um homem completo, completo e realizado. Feliz e satisfeito. Porém, confesso que não gosto da sociedade gaúcha e nem santiaguense, seus juízos e seus valores. Sempre pensei que o dia que tivesse um filho ou uma filha criaria-os numa outra sociedade. E de repente, o conflito. A Lizi não quer sair daqui. Entendo-a.

Tenho sensibilidade, vivência e formação acadêmica para abominar as relações sociais que encetamos. Aqui as pessoas são segregadas por bairros, pelo carro que andam, pelo sobrenome familiar, pelo número de hectares da família e pelo número de cabeças de gado no pasto.

Nossas relações sociais encerram um violento aparthaid social.

A maior ou menor aceitação social está condicionada à posse e à propriedade. Isso é terrivelmente triste. Existe uma segregação bárbara em nosso meio e o que é pior, tudo é camuflado no jogo simbólico dos códigos sociais. Como eu percebo esse jogo, muitas vezes até exagero na tentativa de forçar a maximização que aflora no relacionamento interpessoal.

Não sou tolo para saber que em todas as sociedades existem dominados e dominantes, ricos e pobres. Mas reafirmo o entendimento que de que tenho vivência, sensibilidade e formação para entender os nichos sociais e os juízos derivados deles. Por exemplo, Macapá, capital do Amapá, como toda cidade, tem lá seus ricos e pobres. Só que lá não existem bairros segregados como aqui em Santiago. Não existem bairros onde se amontoam os ricos e outros onde se amontoam os pobres.

Muitas vezes sento-me no SICREDI e fico “desligado” ouvindo as conversas, enquanto finjo ler jornais. Noto o quanto os juízos para enquadrar a decência ou não de uma pessoa decorre do sobrenome familiar e dos bens materiais quantificáveis. Pari passu, nunca ouvi um juízo sequer que fizesse apologia meritosa de uma pessoa por seus valores humanos, pelo talento pessoal, pelo estudo, pelo saber e pelo conhecimento.

Essas são as relações dominantes em Santiago e eu – pelo amor que sinto pela minha filha – não gostaria de vê-la criada nesse mundo ridículo onde tudo se exprime e se expressa pela matéria quantificante de juízos e valores. A moral dominante é a moral da posse e da propriedade.

Existirá amor nesses juízos?

Eu acho que eu sou um homem diferente. Eu busco numa mulher a beleza, a satisfação estética associada ao caráter, mas jamais buscaria uma mulher pelos hectares ou cabeças de bois. Só que na sociedade onde vivemos os homens parecem que satisfazem seu lado macho com a satisfação medida em hectares e bois.

Sinceramente. Eu sei bem que muitos me consideram louco. E o pior é que a recíproca também é verdadeira, eu considero uma loucura completa, a valoração da matéria acima da beleza e da bondade.

Logo, estou e vivo em absoluta contrariedade com os juízos morais, sociais e os padrões de comportamentos do nosso meio, embora ame profundamente as pessoas com as quais convivo. De um lado, até ficaria aqui se dependesse só das pessoas que eu amo. De outro, não consigo ver-me desvencilhado da sociedade na qual estou inserido. E como abomino tanto esses juízos locais, não me satisfaz pensar que as pessoas que eu mais amo, a Lizi e a Nina, estejam condenadas a viver num meio onde elas não serão valorizadas pelo amor, pela decência, pelos estudos e nem pelo conhecimento. Elas serão cobradas e medidas pelo sobrenome, pelo número de hectares, pelas vacas, pelo bairro onde moramos, pelo carro que andamos.

Eu poderia muito bem ter apostado na matéria e aquisição material como juízos para pautar minha vida. Mas não quis. Minha satisfação não advém do dinheiro, da posse e da propriedade. Minha satisfação advém do amor, da sensação de bondade, da solidariedade e da fraternidade social. Na minha cabeça, com os juízos que pautam minha vida, sou um homem riquíssimo, mas não posso aceitar a imposição nem dos meus juízos e nem da hipocrisia social a minha família.

Estou num impasse e estamos num impasse, eu, Lizi e o futuro da Nina. Por mim, não desejo ficar aqui, ressalvando o amor e o carinho pelas pessoas. Por mim, abdico de tudo. A Lizi, agarrada a família dela, resiste e insiste em ficar. Esse é o terrível impasse no qual estou enredado.

Postado por Júlio César de Lima Prates às quarta-feira, junho 30, 2010

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