Direito: ciência ou ideologia?

*Júlio Prates

A tradição aristotélica ocidental forjou um pensamento essencialmente mecânico, dentro de uma esquematização em que tudo precisa ter um enquadramento lógico formal. Lógica dialética é um bicho de sete cabeças.

É claro, não existe substância para entender o pensamento dialético, com suas contradições, teses, sínteses e antíteses, nem seus acabamentos não acabados ou, se preferirem, suas conclusões inconclusas.

Ademais, esse pensamento mecânico é avesso a qualquer crítica;  a concordância acrítica é questão essencial para o entendimento do juízo formulatório dos raciocínios. Só a partir daí entenderemos os sofismas, os paralogismos e os aporemas jurígenos.

Tempos atrás participei com um debate com o pessoal da fundação Ulysses Guimarães, equipe de Curitiba, que, erroneamente, apresentava o marxismo como método.

Disse então ao Professor Márcio, da Fundação Ulysses Guimarães, que o marxismo não era método e que Marx criou seu próprio método, o materialismo dialético. 

Karl Marx, a rigor, empunhou de Hegel, a dialética, e desprezou o idealismo, e, de Feuerbach, o materialismo; criando assim o Método denominado Materialismo Dialético.

O pessoal da Fundação me perguntou, então, como seria aplicado o Método? É simples, ponderei. Em tudo, tudo que envolve as leis da constante mudança, tudo muda e nada fica como está. O próprio Leandro Konder, no livro O QUE É DIALÉTICA, sustentou que um homem não toma banho duas vezes no mesmo rio, porque na segunda vez, nem ele e nem o rio seria o mesmo. Da mesma forma, a dialética não opera com fragmentos (como fazem os juízes e promotores), a dialética opera com o Todo e decorre daí que nada é fechado, definitivo, acabado e absoluto. Tudo é suscetível de mudança e tudo está em constante mudança.

A compreensão dos votos dos Ministros do STF, hoje, passa necessariamente pela compreensão de Métodos, pois suas argumentações são vivamente eivadas de subjetividades metodológicas, o que gera uma ampla riqueza teórica. Ademais, claro fica que esses são sábios a ponto de usarem mais de um Método em suas construções, gerando até confusão aos leigos. Ressalvo que não conheço as posições de todos os Ministros do nosso STF, especialmente dos Ministros Mendonça e Nunes Marques.

Pessoalmente, dou pouca importância ao estruturalismo ou ao funcionalismo. Embora, o exemplo de Florestan Fernandes, ao propor um Método para estudar uma tribo indígena, isolada na floresta, deveria ser uma fusão da dialética (com suas leis próprias e totalizantes, dentro do enfoque hegeliano) pari passu com o estruturalismo. Pois algo esta dentro, fechado em si mesmo (a tribo), derivando-se daí a fusão desses dois métodos. Aceitável. E do exemplo emerge a imperiosa necessidade de conhecimentos básicos de filosofia e sociologia.

A importância de um Método, como a Dialética, na desconstrução de linhas discursivas, é essencial. Por isso, a dialética é profundamente irritante, os mecanicistas do Direito, por exemplo, não suportam o raciocínio dialético. Não sem razão, Carlos Astradas definiu a dialética como “sementes de dragão”. A dialética inquieta os conservadores de direita e de esquerda.

Roberto Lyra Filho, ao lançar as bases da Teoria Dialética do Direito, contrapondo-se ao jusnaturalismo e ao positivismo, as principais vertentes epistemológicas do Direito,  lançou no Brasil as bases do direito alternativo, juntamente com Luiz Alberto Warat, Wolkmer, Agostinho Ramalho Marques Neto e a própria Marilena Chauí, que não é advogada, é filósofa.

Esse movimento teve um lado bom, mas trouxe o caos embutido em si mesmo. Até por ser dialético, mas os juízes não sabem operar com a dialética, muitos são dialéticos e não sabem. A questão é simples. Lyra Filho, saudoso Professor da UnB, sem querer criou um monstro tentacular em cima do privilégio do justo e do fato social em detrimento da norma escrita, gerando um campo de subjetividade enorme e nem sempre compreendido.

O que era para ser um prato fino e requintado, virou num angu de farinha de trigo sem temperos. Juízes e desembargadores, a rigor,  têm formação mecanicista, são herdeiros de Louis Althusser e Marta Harneker.

Está instalado o caos. Quando alguém que conhece Métodos, que sabe o que é Dialética e que sabe apontar as linhas mecânicas na interpretação discursiva das construções jurídicas, tudo vira um caos.

Certa vez  li um manifesto de alguns juízes e desembargadores gaúchos, um documento interno, mas que correu entre toda a comunidade acadêmica gaúcha, onde fica explícito a falta de horizontes acadêmicos acerca do debate sobre o conceito de ideologia. Fiquei com a séria impressão que o autor do manifesto não conhece bem os conceitos e a polêmica mundial que existe em torno destes, do contrário, bastaria balizar o entendimento conceitual (ou dizer: usamos o conceito ideológico no sentido marxista da expressão ou usamos o conceito ideológico no sentido gramsciano). No caso, é óbvio que só cabia a conceptualização de Chauí e de Marx, foi esse o rumo indicado por Roberto Lyra Filho, seja no livro: O QUE É DIREITO ou no outro: KARL MEU AMIGO, DIÁLOGO COM MARX SOBRE DIREITO.

Marilena Chauí, a musa da nova escola jurídica, que deu origem ao movimento do direito alternativo, com Roberto Lyra Filho, escreveu um livro “O QUE É IDEOLOGIA”, onde ela praticamente reproduz o conceito de ideologia de Marx, da obra A Ideologia Alemã. Para ela, ideologia é dominação; e afirma que  é um contrasenso falar em ideologia dos dominados, vez que ideologia pressupõe dominação.

Na contramão, mas bem na contramão, o teórico italiano Antônio Gramsci, sustentou que todas as manifestações, na arte, literatura, pintura, escultura, dança, música … são ideológicas, independente de serem produzidas pelas classes dominadas ou dominantes.

Vejam que a contrariedade é explícita e por isso sustento que o autor do manifesto dos juízes não sabia a diferença da polêmica conceitual entre Gramsci e Marx, pois para um, IDEOLOGIA é uma coisa e para outro, outra, bem diversa.

Imagino que o conceito de Gramsci (me parece que é em  Concepção Dialética da História) se aproxima muito do conceito de ideia de Hegel, estudei isso na Pequena Enciclopédia Hegeliana.

Tempos atrás, recebi em meu escritório a visita do grande teórico, Doutor em Ciência Política, Marcelo Duarte, que me trouxe de presente, um livro em francês, História da Filosofia. Me lembrei do Marcelo agora, justamente por Hegel. Curiosa ilação. A esposa do Marcelo é juíza de direito no Rio Grande do Sul.

Formular um raciocínio, partindo de uma premissa absoluta, vicia qualquer debate e contamina qualquer argumentação. Como ninguém parte para o debate, construção ou desconstrução de raciocínios, sem antes estabelecer suas premissas, o debate será sempre viciado … para não falar mais duramente: frustrado.

O direito se restringe a codificações. Kelsen, aqui para o Rio Grande do Sul, seria um lunático. Os cursos de Direito não focam nas ciências sociais e sua amplitude. Por exemplo, antropologia é um dos ramos das ciências sociais. Outro dia eu estava numa audiência de família e precisava questionar uma psicóloga arrolada como testemunha. Aí, levantei a questão da formulação do ego na criança a partir das teorias de epistemologia infantil em Jean Piaget. Puxa, eu estava no exercício de minhas prerrogativas legais e constitucionais e precisava questionar a testemunha, era meu dever e meu direito. Só que …o resto todos já sabem. – Seja breve, seja objetivo, seja claro. É de rir para não chorar.

Da mesma forma, se os cursos de Direito não privilegiam o estudo de sociologia, filosofia, ciência política, antropologia, lógica, psicologia, semiologia, epistemologia, psicanálise e psiquiatria, nem falo em anti-psiquiatria, esperar o quê? A Escola de Magistratura também é falha, porque restrige o Direito a decoreba de códigos e, em nome do Direito, protegem pessoas vivamente nazistas.

Quem conhece um pouco de ciências sociais e sabe usar um Método, e vai advogar, podem escrever: este está fadado ao insucesso, de ser encarado como complicador … até como lunático e louco. Eles repulsam o que não sabem e não entendem, sem perceber que quem restringe o Direito são eles próprios e suas próprias limitações.

Outro dia, tive que rir. Estava numa cidade da região. E uma autoridade me disse que Dialética era a arte de bem racionar ou construir um discurso. Na mesma hora notei a pobreza. Sabe ele o que é polissemia e que uma expressão assume vários significados. Dialética, nos conceitos de língua portuguesa, é uma coisa. Agora, nas ciências sociais, é parte de um Método (por favor, não confundam Método com Metodologia).

Esse erro demonstra bem o tamanho da limitação acadêmica e teórica que grassa no Rio Grande do Sul e revela bem que os cursos de ciências sociais e jurídicas nada ensinam sobre ciências sociais. E em ciências sociais aplicam um semestre malfadado de sociologia e fica nisso. Tratam apenas das ciências jurídicas, aliás, que eu até tenho dúvidas se é ciência ou ideologia. Uma CLT, um CC ou um CPC é claramente ideologia e não ciência. Pior que isso, são as aplicações endógenas dos operadores

É claro, se formos adentrar na psicanálise, na semiologia, nas construções discursivas com Pechet e Althusser, ou filosofia jurídica com um amplo campo especulativo aberto, aí – sim – poderemos falar em ciências, mas isso é muito mais profundo do que se imagina.

Usei esse texto meu, já publicado, para enriquecer as reflexões, pois ao falar em aporema, recordei do método dialético inserido no mundo jurídico por Roberto Lyra Filho e Marilena Chauí.

As duas vertentes ideológicas no campo da ciência jurídica – jusnaturalismo e positivismo – não conseguem dar conta de seus pressupostos teóricos ao nível dos  principais desenvolvimentos epistemológicos modernos do conhecimento.

O positivismo acaba por reconhecer, implicitamente, o seu fundamento na dominação; por exemplo, o seu fundamento na legalidade, acaba sempre reconhecendo a dominação pura e crua do Estado.

Por outro lado, o jusnaturalismo eleva a padrões metafísicos e abstratos ou o problema da “justiça”, como se pudesse existir um acabamento imutável dessa categoria, separando-a da realidade histórica e concreta, padrão assim natural e referindo-se aos fundamentos de ordem teológica, como se pudesse existir uma categoria de justiça divina e como se essa pudesse ser universal. Para eles o é.

Em outras palavras, o positivismo e o jusnaturalismo, tanto se referem, reciprocamente, em seus fundamentos últimos, que sempre viram teoria para sustentar uma ordem jurídica dominante.

Assim é a teoria pura de direito de Kelsen, que se reduz  a própria norma fundamental, que é a própria pirâmide kelseniana. Por lado, o jusnaturalismo (que em tese é oposição ao positivismo) em última hipótese, para poder ter sentido prático, acaba por ser teoria que dá outra sustentação jurídica ou justifica esta ou aquela ordem dominante.

No conflito entre as duas grandes vertentes epistêmicas, foi que teóricos, dentre eles, o saudoso Roberto Lyra Filho, Agostinho Ramalho Marques Neto, Marilena Chauí … vislumbraram a grande brecha de construção de uma nova teoria jurídica, principalmente que rompesse com o maniqueísmo entre o jusnaturalismo e o positivismo.

Claro que era necessário romper com a ideia de que direito só é direito, instado o que é legal: acaso o processo de reconhecimento de um direito não é anterior  à sua positivação, e está já não ocorreu no processo histórico?

A vertente complexa a que me referi anteriormente é a dialética. Tanto Roberto Lyra Filho quanto Marilena Chauí, usaram uma conceituação marxista da expressão. Isso fica claro na leitura da obra de Lyra Filho:  Karl meu amigo, diálogo com Marx sobre Direito e também no livro O QUE É IDEOLOGIA, de Marilena Chauí.

Karl Marx ao construir uma política de busca de sua teoria econômica, foi buscar o conceito de dialética em Hegel, eis que desprezando o idealismo que via essa, apropria-se somente daquela. Aí, acresceu o materialismo de Feuerbach, gestando, a partir de então, o materialismo dialético.

E neste breve texto não cabe uma digressão sobre os filósofos iluministas franceses, além de Ricardo, e a economia clássica inglesa e, é claro, de Hegel e Feuerbach, quando a intenção é apenas demonstrar que um instrumental essencialmente marxista – a dialética – foi pinçado das teorias clássicas e inserido em no nosso mundo jurídico.

O escopo, a rigor, também é nem entrar nessa seara, conquanto o pacto da ideia de que o uso de um precioso instrumental como a dialética, aplicado a situações específicas, entre o justo legal, possa florescer alternativas diversas das que conhecemos.

Com razão, muitos magistrados gaúchos encetaram a discussão da ilegitimidade do congresso nacional, agora mais do que nunca os fatos corroboram os argumentos de homens como Amiltom Bueno de Carvalho, Aramis Nassif, Rui Portanova, dentre outros. Que legitimidade tem um congresso corrupto, atolado na charneca da indecência? O congresso  nacional é produto da economia,  de seus grupos de interesses da esquerda à direita, mas fica nisso.

Da dialética:

Engels, o parceiro predileto de Marx, no Anti-Durhing já afirmava que “a dialética é ciência das leis gerais do movimento e do desenvolvimento da sociedade humana e do pensamento”.

O filósofo existencialista francês Jean Paul Sarte, comentando sobre a dialética afirmava: “é a atividade totalizadora, ela não tem outras leis que não são reproduzidas pela totalização em curso e estas se referem, evidentemente, às relações da unificação pelo unificado, ou seja , aos modos e presença eficaz do devir totalizante, nas partes totalizadas”.

Oportuno e curioso é refletirmos sobre as considerações de Pedro Hispano, no século XIII, sobre a Dialética: “é a arte das artes, as ciências das ciências porque detêm o caminho para chegar ao princípio de todos os métodos. Pode arriscar com probabilidade os princípios de todas as outras artes, por isso, no aprendizado das ciências, a Dialética deve vir antes”.

Gerd Bornhein, nosso grande e saudoso filósofo gaúcho, comentando sobre a Dialética assim asseverou: “ela existe para fustigar o conservadorismo dos conservadores como sacudir o conservadorismo dos revolucionários.  A dialética não se presta para criar cachorrinhos adestrados “.

O argentino Carlos Astrada foi mais longe: “a dialética é semente de dragões”.

Pois este precioso instrumento, pinçado para o nosso mundo jurídico por Roberto Lyra Filho, é de análise instrumental, e tem embasado os instrumentos de interpretação da chamada Teoria Dialética do Direito.

Ela tem se prestado para questionar a legalidade de certos direitos, para questionar os direitos   dos poderes positivos e também para questionar uma reflexão profunda sobre os direitos que não são positivados pelo Estado, mas que são legitimados pelo povo Aponta luzes entre a legitimação e não positivação. Exemplo disso é o jogo do bicho.

Existem outros direitos não legitimados, o direito a violência reativa é um deles. Ademais, a roubalheira dos políticos, de esquerda e de direita, apenas corrobora a tese do direito à reação. Por que passar fome, viver na inanição, quando os mercados estão aí abarrotados de comida? E direito próprio ao furto se tornaria um direito, embora não reconhecido pelo Estado.

Por fim, o direito é apenas um elemento superestrutural que legitima a dominação de classes. Enquanto os  ladrões voam em seus jatinhos portando malas abarrotadas de dinheiro, os pobres abarrotam os presídios por motivos capazes de causar rubor em quem tem um mínimo grau de civilidade e humanismo.

Usemos, pois, a dialética para compreender o que nossos olhos nos traem e também para duvidar do certo e do justo por alguns. Existem outras certezas e outras justiças. E também outros Direitos, mesmo que não positivados. O jogo do bicho é o mais expresso, como bocas de fumo, como clínicas clandestinas de aborto, o plantio de maconha, que todos sabem onde fica e quanto custa um aborto. São Direitos reconhecidos pelo povo, reconhecidos pela sociedade, porém, não positivados pelo Estado e a positivação vai acontecer, paulatinamente, ao longo de décadas.

A questão mais prática que envolve o aborto, fóruns do debate sobre legalização ou não, seria solver o quadro pelo enfoque da descriminalização e pronto. Retirando do Código Penal os artigos que o fazem crime, deixa de existir o crime e o resto passa a ser um problema da sociedade, de saúde pública. É claro, entra em pauta a força das religiões e a complexidade que o debate encerra. Afinal, é um debate complicado.

O aborto é um direito que existe, é reconhecido pela sociedade, porém, não é positivado pelo Estado, excetos em suas exceptualizações legais previstas na codificação. Pela não positivação, o ideal seria simplesmente uma descriminalização, que nada mais é que a retirada do Código Penal dos artigos que o fazem crime; e o assunto passaria a ser de ordem médica-profilática e sanitária.

O que os positivistas querem fazer é o caminho mais difícil. Querem subtrair a ilegalidade da prática, torná-la legal dentro de um jogo de força totalmente adverso. É só olhar o peso das bancadas evangélicas e católicas que não precisa maiores debates.

A teoria dialética do direito, aplicada a questão do aborto, certamente pela deslegalização ou descriminalização, sem aportar no arcabouço jurídico um dispositivo legal de positivação, seria a maneira mais factível de enfrentar a questão.

Por fim, meu lamento triste, pois falar em vertentes epistemológicas do Direito, hoje, soa algo tão estranho como a abordagem de uma solução da Dialética, como Método, pois quase ninguém mais sabe usar Método e – via de regra – confundem-no com metodologia.

Confesso que até hoje tenho dúvidas em tratar o Direito como Ciência, cada vez mais me parece com ideologia (na acepção gramsciana da expressão). Hoje, estou dentro do ninho de serpentes nazista e fascista e vou desafiar, nos próximos dias, um produndo debate filosófico sobre o poder judiciário gaúcho. Quando eu tomei essa atitude não é para tangenciar e sim para aprofundar ao extremo como certas pessoas  usam o poder judiciário gaúcho, e farei tudo sem medo  e podem irem preparando seus melhores filósofos, pois eu entro com teoria e substância para demonstrar e desafiar. Já adianto, de antemão, que embora eu more em Santiago, não tenho nenhuma crítica as juízas e juízes locais, minha disputa teórica tem outro endereço e vamos ver quem tem conteúdo para levar ao extremo. Vou provar que o direito não é ciência e que são essas pessoas, justamente essas, as quais vou endereçar minhas críticas, que fazem o uso ideológico do poder judiciário gaúcho para emprego de benesses e tráfico de influências.

Chegou a hora de ver quem tem conteúdo e quem sustenta um debate e quem vive de enganação e ludibriação. Espero isenção e neutralidade da OAB RS, mas também se quiserem ficar ao lado dos abutres, pois todos os atos serão nominados, sem exceções, que fiquem, pois não nasci de susto e o desafio que me criaram exige um resposta , em nome de minha filha.  A falácia ad hominem é a máxima de atacar o narrador, em vez de refutar suas idéias, eu fui vítima disso, exatamente disso, por integrantes do poder judiciário gaúcho. 

 

*Autor de 6 livros, jornalista nacional com registro no MtB nº 11.175, Registro Internacional de jornalista nº 908 225, Sociólogo e Advogado inscrito na SA OABRS sob nº 9980.

 

Narrativa semiológica e pensamento único

Foi no curso de pós-graduação em Letras ( Leitura, Produção, Análise e Reescritura Textual ) que eu tive a oportunidade de ler, refletir a aprofundar no pensamento de Saussure e a reflexão necessária sobre os meios e sistemas de comunicações vigentes numa sociedade.

Aí reside o maior impasse. Justamente, estudar e entender os meios e sistemas de comunicações. Não vou entrar aqui no debate sobre silogismos, paralogismos e aporemas.

Este é um artigo breve, para meu blog, portanto não se trata de nenhum ensaio acadêmico, mas, sim, uma reflexão em cima dos fatos e como se dá a leitura desses, e também pelo momento nacional, com jornalista preso num inquérito inconstitucional e ilegal.

Sempre escrevi que emprego o conceito de “ideologia” como visão de mundo, nas manifestações individuais ou coletivas, produzidas na arte, pintura, escultura, dança, música, literatura … Assim, tomo e emprego o conceito de ideologia como sinônimo de ideia, sendo muito mais gramsciano do que marxiano propriamente dito. Com o devido respeito às formulações hegelianas.

A interpretação de um fato social qualquer, comporta – sempre – mais de uma leitura. Depende do enfoque ideológico de quem interpreta esse fato.

O pensamento de direita, por exemplo, colide sempre com o pensamento de esquerda no tocante aos costumes. O nu de um homem pode ser visto como “artístico” ou “falta de pudor”, isso depende dos valores, ritos, costumes …de quem está fazendo a leitura daquele nu.

A leitura de Maquiavel, por exemplo, condensa mais de uma interpretação ou leitura. Para uns, “O Príncipe” pode ser um instrumento de dominação. Para outros, pode ser uma arma útil aos dominados, pois desnuda a dominação em si.

Hoje, existe no Brasil um claro e visível confronto entre duas ideias fundamentais, desde como o cidadão vê as instituições, até como as aceita,  crítica ou acriticamente.

A crítica associa-se à liberdade de expressão, por mais dura e áspera que possa ser, senão não é crítica. O próprio presidencialismo não é um dogma em si mesmo, afinal aí existe o parlamentarismo, ou, se quiserem, a própria monarquia. Uma crítica ao STJ, por exemplo, comporta mais de uma leitura e não se associa – necessariamente – com uma tentativa de anular o poder judiciário. A crítica pode ser aos ocupantes do cargo e não a instituição. Agora, eu já li vários ensaios sobre inteligência artificial, que incidem na superação humana no ato de julgar. O mesmo, com o avanço da telemática, fala em substituir o parlamento pela auscultação direta do povo (friso que emprego a expresso povo no sentido político e população no sentido demográfico).

Estudei muito os clássicos de ciência política. Aliás, embora advogado, estudei no curso de ciências sociais, as disciplinas de ciências políticas, isoladamente. Foi ali que tive contato com as teorias de Montesquieu e a divisão dos três poderes (executivo, legislativo e judiciário). É claro, sempre vamos nas raízes de John Locke e seu aflorado iluminismo.

Anos depois, no curso de Direito, especialmente estudando Direito Constitucional, Teoria Geral do Estado … somei os conhecimentos adquiridos numa área (ciências sociais/sociologia) com outra (Direito). O somatório desses conhecimentos permitiu-me entender – ao lado de outros ramos do Direito – o funcionamento do Estado, origens, desenvolvimento e estágios atuais, desde as formas e sistemas de governos, até a compreensão mais ampla da legitimação que um dos elementos constitutivos do Estado – o povo – concebe aos seus governantes.

É claro, a ciência política levou-me de Maquiavel a Gaetano Mosca, pois o estudo do poder, seu exercício e suas formas de legitimação, são imprescindíveis para entender o Estado em seu núcleo essencial.

Durante muitos anos, confesso, fui defensor da democracia como um valor universal. É claro, com um Estado controlado pelos três poderes harmônicos e independentes entre si.

Em 1998, entrevistando o Juiz de Direito Vanderlei Deolindo, levantei para ele, em conversa fora da entrevista, o debate sobre a legitimidade do poder judiciário.

Ele próprio, um juiz experiente, concordou com a reflexão acerca da ausência de legitimidade. Aliás, eu tive acesso, certa vez, a um debate num grupo de estudos liderado pelo então procurador-geral da Prefeitura de Santiago, Tacely Ceríaco Jr e também pelo Doutor em Ciência Política, Marcelo Duarte, aliás, esposo de uma juíza de direito, com avançadas teses acerca da desnecessidade do poder legislativo.

Com o avanço da inteligência artificial, futurologicamente falando, eu vejo os poderes clássicos em absoluta superação, principalmente o judiciário e o legislativo.

Discutir a superação de bases epistemológicas da constituição de poderes agora é crime?

O exercício do poder se relaciona com sua legitimidade e manutenção; e as formas de legitimação vão desde as ditaduras armadas até a criação de um consenso hegemônico de um povo – o que não quer dizer: absoluto.

O Brasil, hodiernamente, vive um choque de ideias e visões de mundo antagônicas entre si. Direita e esquerda pensam de forma diferente as relações sociais encetadas pelos poderes e as formas de comunicações expressas nas manifestações e narrativas.

Um fato expresso na rede globo é considerado falsa notícia por quem não pensa como os ideólogos da emissora. As mídias alternativas, especialmente as redes sociais, lançaram, no debate, uma narrativa que se choca com os atuais padrões de dominação, logo são consideradas falsas notícias, como se a interpretação e a leitura de uma narrativa, por um outro viés, fosse crime.

O que é falsa notícia para um receptor de direita, pode não ser falsa para um receptor de esquerda, e vice versa,  seja na interpretação das leis, da Constituição, dos costumes, do modo de vida etc …

Grasso erro mesmo é tentar criminalizar quem pensa diferente, julgando apenas com os instrumentais teóricos de apenas um campo de pensamento, ignorando a pluralidade de ideias e as narrativas divergentes entre si.

Esta encruzilhada em que se encontra o Brasil, seria desnecessária se tivéssemos este entendimento, que é básico para a harmonia numa sociedade onde os campos ideológicos, visões de mundo e costumes, são diferentes. Porém, professados por integrantes de uma mesma sociedade em suas diferentes estratificações e níveis, das classes dominantes às dominadas.

Pensar diferente, seria endossar o monopólio totalitário do pensamento único, a seguir o embate fratricida detonado a partir do entendimento de cada um sobre o que é falsa notícia.

Agir ao contrário, é agir como os acendedores de lampiões, revoltados com o advento da luz elétrica.

Tudo é algo a ser superado, desde o fundamentalismo e os dogmas. Inclusive o dogma de Montesqueau e de ambos os lados. Do contrário, a intolerância e a ditadura do pensamento único estará semeada, pois floresce, sim, ameaça os direitos e garantias fundamentais.

CONFISSÕES INTIMISTAS DE UM JORNALISTA

Minhas despedidas de advogado e meu recomeço de escritor, escrevendo o que nunca escrevi. Sobre 3 novos livros, prontos e inacabados. Escrevo direto e sem revisão, porque vivo sozinho e estou muito afetado pela retinopatia diabética.

 

O começo

Eu era muito menino ainda, devia ter 13 para 14 anos, quando conheci um senhor muito pobre, vendia jogo do bicho e era motorista da Cooperativa Rural. Ele devia ter uns 50 anos ou mais ou menos.

Ele me chamava pelo nome e me convidava para jantar na casa dele. Ficamos amigos e logo começamos a viver juntos as pescarias e longas viagens para barragem Sanchuri, entre Itaqui e Uruguaiana.

Com 14 anos, fui contratado para trabalhar na veterinária da cooperativa rural. Era tudo muito estranho para mim.

Meu pai nunca falou comigo, nunca quis conversar comigo e nunca entendi as razões daquela distância e de um certo ódio que ele nutria por mim. Além de nunca falar comigo, quando falava era com a nítida intenção de me menosprezar. Tudo em mim era errado, até um dia que quis lhe mostar uma prova de história, em que tirei 10.0. Achei que receberia um abraço, uma saudação de felicidade e o que ganhei foi um xingão por ter ido bem em história. Meu pai achava que eu deveria ir bem em matemática.

Minha mãe, que assistia tudo, que notava o desprezo do meu pai por mim, passava falando mal dele para mim. Segundo ela, ele bebia, ía nos cabarés, jogava carpeta, em suma, notei desde tenra idade o quanto minha mãe odiava meu pai.

Éramos pobres, muito pobres, mas contraditoriamente, tanto meu pai quanto minha mãe, eram dotados de um avantajado intelecto. Desde criança, muito criança, minha mãe me contava as histórias do império romano, me falava de filósofos gregos, os quais não tinha a menor noção de quem se tratava. Minha mãe era cristã e tinha uma visão de Jesus Cristo muito próxima do que pensa hoje o pastor Caio Fábio, ela era a favor do amor, mas de um amor gratuito, minha mãe era contra vender as coisas da lavoura, ela dava tudo, inclusive os ovos das nossas galinhas. Aos poucos minha mãe foi me ensinando a desprezar o dinheiro, a andar somente com os mais pobres, com os negros, os açoitados e os mais humildes. Também me ensinou a amar as prostitutas, os gays e a respeitar todas as religiões.

Meu pai era uma pessoa estranha, embora o amasse muito desde criança, embora sempre tenha ficado claro a rejeição que ele tinha por mim. Homem pobre, miserável, meu pai escutava o programa a VOZ DO BRASIL, onde havia uma divisão das notícias do executivo, legislativo e judiciário. Meu pai sabia tudo sobre os ministros das altas cortes, sobre os ditadores e era um voraz simpático da ditadura militar. Quando brigava comigo, fazia apologia a tortura, era a favor de maltratar os presos e apoiava toda a repressão instituída no país pela ARENA. Foi essa violência explícita e essa defesa da ditadura que me afastou dele desde muito cedo.

Contando, quase ninguém acredita, mas meu pai morreu sem falar comigo. Eu sempre fui o objeto principal do seu desprezo e talvez o símbolo de tudo que ele mais odiasse.

Sempre foi muito estranho eu entender tudo isso.

Minha vida foi sempre muito solitária. Não tinha amigos, vivia sempre sozinho.

Com 14 anos, o falecido advogado Níssio Castiel me disse que arrumariam um emprego para mim na veterinária da cooperativa rural. Humilde, pobre, sem opções, aceitei ter carteira assinada aos 14 anos e ao mesmo tempo conhecer e conviver com o alto empresariado rural, criadores da ovelhas e de gado. Trabalhei ali até os 18 anos. Foi ali também que entendi como os patrões são odiosos e detestáveis.

Havia um dentista chamado Paulo Silva, que era maçom, sem saber como e nem porque ele muito amigo do meu amigo pobre que era motorista e vendedor de jogo do bicho. Logo, sem entender nada, ambos eram meus amigos, Paulo tratava meus dentes, tudo sempre sem me cobrar.

Logo, percebi que o médico Rubem Lang ficava horas conversando com o dentista Paulo Silva. Ficava cuidando a imaginando como tinham tanta conversa e tanto assunto.

Meu amigo pobre, segundo minha mãe me contou, era um homem muito bom, era muito rico, tinha até aviões, e foi minha mãe quem me me contou as histórias dele com o ex-presidente João Goulart, troca de aviões por fazendas, baratinhas cabriolets…

No fundo, descubro que Elesbão Mamedes Vargas Chagas, afora ser um doce de pessoa, era um aventureiro raro, desses que a gente só vê em filmes. E também pouco se importava para o dinheiro, enquanto tinha ía gastando, namorando mulheres da alta elite paulista, frequentador dos altos bordéis de capitais, e sempre cercado de amigos, gastando e gastando e gastando. Até que ficou pobre. Muito pobre.

 

Passam-se os anos.

Lembro-me como se fosse hoje quando apareceu uma espinha no seu lábio superior. Espremida, nasceu um câncer e, em breve, levou sua vida. Visitei-os no hospital de clínicas pouco antes de falecer. Ele me perguntou como eu tava me achando com o Bisol?

Explico-lhe que estava tudo bem, mas sempre mais confuso do que certo de tudo o que acontecia ao meu redor. Na verdade, sonhei que ELESBÃO me contasse o que ele sabia que eu não sabia sobre mim próprio. Foi tudo infrutífero.

Foi Elesbão quem me contou que o ex-presidente Jango teve uma paixão em Santiago e fortemente inclinado a casar-se com ela: a Dra. Eleonora Lang, filha do médico e ex-prefeito de Santiago, Rubem Lang. Jango gostava da Maria Teresa, em São Borja e da Eleonora em Santiago. Elesbão me contava os detalhes sobre as mulheres. E foi aí que entrou os trechos do namoro do ex-presidente com a Maria Teresa, embora com a Eleonora, Jango tivesse uma inclinação política muito forte pelo peso do pai, o médico santiaguense Rubem Lang.

Elesbão era muito meu amigo, um ser humano raro, mas foi a pessoa que mais confundiu minha cabeça até hoje.

Eu era um menino pobre, insignificante, filho de um guarda noturno, quando o dentista Paulo Silva me chamou na sala de sua casa. Paulo era um líder macônico muito influente, era o maior confidente de Rubem Lang e influenciava a ala esquerda da cooperativa rural, com Níssio Castiel, Valentin Cardoso da Silva, Rubem Lang e pelas bordas íam empregando os deles. Mas eu não era deles, meu pai era um miserável guarda e ainda defendor da ditadura. Pelo sim, pelo não, coloquei uma camisa nova e foi até a reunião com o dentista maçom Paulo Silva. Noto que na frente do seu consultório estava uma comioneta FORD, cabine simples, vermelha e branca, do médico Rubem Lang. Bato na porta, Paulinho mesmo me recebe e para minha surpresa estavam na sala Níssio Castiel e Rubem Lang. Níssio Castiel estava respondendo como diretor comercial da cooperativa rural, mas não fala nada. Quem comandava as conversas era o próprio dentista Paulo Silva. Era simples. Eles me empregariam na veterinária, eu ganharia um salário mínimo, teria carteira assinada e poderia seguir estudando a noite, pois quando eu concluisse o clássico ou científico (equivalente ao ensino médio de hoje) eles veriam onde me colocariam.

É claro que eu fiquei feliz, mas sem entender nada, afinal eu sabia quem eu era, quem era meu pai, quem era minha mãe e todo aquele cerimonial era totalmente incompatível com minha miséria e minha pobreza, ademais, tudo contraditório, com minha origem, exceto que o próprio dentista Paulo Silva levou-me para dentro do Partidão e da biblioteca do Partido Comunista. Eu era tratado como um filho por todos eles, seu Aparício Gomes da Silveira e Jeferson Gomes da Silveira. Seu Aparício emprestava-me os livros de Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos. Dostoiewiski, Tolstoy, Mann e antes de eu lê-los, ele me explicava tudo como detalhes, situando época, fatos, contexto … Foi na chácara do seu Jeferson que eu conheci seu Adelmo Genro, pai do Tarso e avô da Luciana.

Mas no meio da história, eu tinha um senhor que era oposição a tudo isso, mas que me queria muito bem, me criou dentro da casa dele, me levava para a chácara dele com seus filhos mais velhos Marco Aurélio e Suzana. Era o Dr. Valdir Amaral Pinto.

Quase impossível contar isso, não fosse ele vivo. Eu ficava ouvindo suas histórias com a Dona Cleusa e gravava tudo ( na minha mente, leia-se bem). Lembro-me que um dia ele contava a ela que o Antônio Carlos Machado lhe havia doado toda a sua biblioteca, que ficava no sótão da casa da tia Maria, em Florida. Aliás, foi lá na casa da tia Maria, esposa do saudoso tio Aristóteles Amaral Pinto, que tu tive contato com os livros que hoje integram a Biblioteca do Dr. Valdir. Como gratidão pelo presente, o Dr. Valdir conversava com Dona Cleusa, “eu acho que vou comprar uma Veraneio, equipar bem e dar de presente para ele”. O Marco Aurélio sempre foi envolvido com os livrinhos e revistas, sempre foi um leitor, era uma doce de pessoa, incapaz de comer um pão sem dividir com alguém; e a Suzana era uma criança tão dócil, tão meiga, tão amável que meu coração palpitava forte por ela. Éramos tão amigos que um dia ela me perguntou o que era “camanga”. Imaginem eu ter que explicar para tão fina menina o que era uma camanga, expressão muito usual em nossa época para definir mulheres fáceis, que vão com qualquer um.

Dias atrás, o desembargador Caum me perguntou se eu conhecia o Dr. Valdir Amaral Pinto e se eu conhecia a filha dele, a Suzana. Respondi que sim, mas como explicar o que ninguém entende, eu era criado pelo partido comunista, tinha uma vida com os comunistas, e vivia dentro da casa do Dr. VALDIR, que era um ícone da direita?

Só que nunca, nunca, nunca, o Dr. Valdir me perguntou uma linha sobre política, embora ele soubesse de minhas amizades, mas no fundo ele também era estranho, lembro-me que o Tarso quando vinha a Santiago, antes de qualquer coisa ía beijar a mão do dr. Valdir e o Olívio também era muito chegado nele. Vá entender, nessa época de conflitos aguçados, a extensão dessas amizades além das ideologias!

Retomando minha amizade com Elesbão Mamedes Vargas Chagas.

Um dia, conversando com o Guilherme Bonotto, quando ainda conversava com ele, perguntou-me com ar de espanto se eu tinha convivido com Elesbão?

Elesbão era neto do maior estanceiro gaúcho, mas quando o conheci ele já era pobre, tinha feito muita festa e torrado milhões com a mesma facilidade com que ganhou sua enorme fortuna.

Uma tarde saímos de Santiago, numa velha kombi verde e branca para comprar peixes na barragem Sanchuri. Eu adorei pescar tantos peixes e estava adorando tudo. Até que Elesbão, sentado num bar na beira da barragem, pede para conversar comigo. Eu devia ter 14 para 15 anos, isso é certo, era o ano de 1974. Ele me diz que me levaria um luxuoso cabaré em Itaqui, mas frisa que era algo que eu nunca tinha visto. E diz-me que tinha uma mulher que gostaria de me conhecer. Achei graça e logo pensei que Elesbão era um contador de anedotas.

Pensei numa guria de minha idade e soube que esse luxuoso cabaré fora comprado num negócio meio misterioso envolvendo o ex-Presidente Getúlio e o ex-presidente Jango. Mas isso, a época, pareceu-me irrelevante. E voltamos para Itaqui.

Chegando na casa, fico impressionado com a suntuosidade. Eram dois andares, mas com um salão, no meio que contemplava ambos os andares. Tudo era muito lindo, lembro-me que a cor vermelha impressionava. Realmente, era algo luxuoso demais.

Elesbão fora recebido com festa, saudações, alegria total, parecia velho conhecido. E de fato, o era.

No meio da recepção, eu fico apático, quieto, era apenas um guri.

Nisso, Elesbão pergunta pela ( e pronuncia o nome de uma mulher). E emenda: – diz para ela que eu trouxe o Júlio.

Opa, como assim, como essa mulher sabia quem era o Júlio?

Logo ela desceu do segundo andar. Era uma loira linda, olhos verdes, uma mulher já com uma certa idade, mas muito linda.

Ela me abraça com uma ternura sem precedentes. Pede para eu subir com ela. Era uma suíte de mármore, havia uma sala, cozinha e um quarto. Ela me abraça várias vezes, sentamos e conversamos por longas horas. Ela sabia tudo de minha vida, de minha mãe, das terras do meu avô no Alto Uruguai, em Três Passos, eu estava sem entender nada, nada de nada. Discreto diante da educada senhora, não quis perguntar nada, apenas ouvia-a e repondia as questões que sabia, outras tantas eu não tinha a menor ideia. Ela conhecia bem a família do Jango e sabia tudo em detalhes, conhecia demais o Elesbão e até nosso pessoal aqui de Santiago. Mostra-me vários albuns de fotos.

Nós havíamos saído cedo de Santiago, numa kombi velha, estrada de chão, e eu estava cansado, muito cansado. Fizemos um lanche, tomo uma garrafa de grapete, e ela diz que eu posso dormir ali na cama dela, era uma cama de casal.

Eu me lembro, devia ser madrugada, que ela me tapou, me beijou na cabeça e dormiu ao meu lado. Eu sempre fui muito feminino e me senti tão bem dormindo ao lado dela, é claro, sem nada de sexo, nem de longe.

Voltando a Itaqui, no outro dia cedo, Elesbão me chama muito cedo. Estranhamente, ela não estava no quarto, certamente não quis se despedir de mim, nunca saberei.

Passadas décadas, tendo audiência em Itaqui, viajo um dia antes e começo a vasculhar pela casa. Depois de um dia procurando,  creio que encontrei a casa, sem certeza absoluta, mas muito parecida com a casa onde estive … escombros e escombros, curiosamente, quase ao lado do ministério público, sem ser na mesma rua.  Eu tinha adorado essa promotora Thaís e também a promotora Melissa, coisa rara, hoje tudo mudou comigo e o ministério público, mas essas deixaram-me marcas tão positivas e tão boas. Elas entendiam a minha dor e meu amor pela Nina. Tudo foi em vão, a conjunção de forças dos beluínos com os belzebus foram maiores que eu.

Mas a gratidão sempre ficou gravada em minha alma, assim como a única pessoa que acertou sobre uma figura que apareceu em nossa região, fingindo ser amigo, mas era o maior inimigo que eu tinha, levei anos para descobrir isso, embora o Dr. Valdir foi o sábio que sempre antecipou tudo.

Avant

Itaqui e Elesbão foram lacunas que ficaram em minha vida. Como várias lacunas sem respostas até hoje palpitam sobre meu ser.

Passados anos, desde aquele encontro ali na casa do dentista maçom Paulo Silva, tendo eu concluído o ensino médio, o médico Rubem Lang me chama para uma conversa.

Me dá uma carta de punho em duas folhas azuis de receituário e pede para eu entregar aquela carta para o desembargador e deputado José Paulo Bisol, que eu teria que seguir meus estudos e que já estava tudo acertado entre ele e o deputado. Sinceramente, eu acho que foi uma indicação do PMDB de Santiago, embora eu fosse filiado ao PT. Não sei se não era coisa apenas da cabeça do Dr. Lang?

O certo é que foi muito bem recebido no gabinete do José Paulo Bisol. Com as vagas preenchidas, entrei pela produção da RBS TV Mulher.

Eu vou terminar essa pequena história noutros capítulos, até porque vou me dedicar a terminar 3 livros, ambos já começados, um sobre Cândido Godoy, pesquisa que eu faço há décadas, outro, sobre os bucheiros, que será um romance épico sobre o consumo de carne no sul do Brasil nas décadas de 60 e 70,  e um terceiro sobre o poder judiciário no Brasil, leitura que falta no Brasil, pois as produções são toscas, primárias e puramente ideologizadas e eu soube sentir e pescar essa carência.  Sei que eu sei produzir merdas e tenho fineza e produzir pureza, quando quero e dependendo de quem desejo homenagear ou eternizar, como dizia o Chicão sobre um Livro.

Eu tinha uma amiga, a Renatinha, que me pediu uma cópia desse livro sobre os bucheiros, na época, compactei os pedaços para enviá-los, embora só quem os tenha lido e revisados fosse minha sobrinha, em São Paulo. Nesse ínterim, nunca soube o que houve, Renata sumiu, bloqueou-me no face, e ficou tudo assim. Sei como as conversas são desgraçadas e sei como a edição do não contraditório por uma pessoa geram essas desavenças. Mas pouco me importo com quem vai, por isso me importo em fazer quando posso fazer. Muitas pessoas vão e nunca mais haverá espaço para voltarem. Muitas vão quietas, depois, como poeira cósmica, voltam. Mas o caminho para a volta sempre ficou aberto. Outras, a gente descobre a extensão da puerilidade e das traições. Com essas, restará a inimizadade eterna, pois meu lado islâmico é muito forte, embora eu seja um certo cristão. Relativamente cristão.

Eu soube usar bem um Delgatti e puxei tudo o que me interessava de todos, e ninguém sonha tudo o que tive acesso. Portanto, não se façam de santinhos diante de mim, pois tudo o que eu evito é fazer injustiças com uma pessoa, mas soube usar os recursos telemáticos que me propiciaram em saber o que eu desejava saber; e o que eu soube é tão espantoso quanto assombroso, considerando que eu sou uma pessoa tão pobre e tão insignificante. Não merecia tudo isso, mas em tendo acontecido e não tendo retorno de nada do que foi, agora não estranhem os mergulhos estranhos e arquem com as consequências, todas e todos.

 

 

Jornalista Júlio César de Lima Prates,

Registro Nacional no Ministério do Trabalho noº 11.175.

Registro Internacional no Ministério da Cultura, ISBN,  nº 908225.

 

 

Do Estado e as ideologias

Sei que existe um profundo questionamento acerca de minhas posições político-ideológicas, e essas afloraram após a análise que fiz envolvendo o campo oposicionista de Santiago, minha cidade natal.

Vou fazer uma abordagem por etapas:

1 – Sobre o Estado e minha posição ideológica.

Quando estudante de sociologia, logo percebi que também deveria cursar DIREITO, especialmente para entender o Estado, as teorias dos poderes, bem como o arcabouço constitucional. Na sociologia, falávamos em Estado, mas com profundas lacunas. Os sociólogos não dominam nada sobre o aparato do Estado e seus poderes. 

Aos 27 anos, dei uma de autodidata. Foi quando eu percebi (tardiamente) que a universidade bitolava o aluno e – por conta – joguei-me numa busca para entender os campos paradigmáticos das ciências sociais e humanas. Era impossível compreender o Direito, sem entender suas vertentes epistemológicas, o positivismo kelseniano, o jusnaturalimo e a teoria dialética do direito. Como entender economia, sem ler os clássicos do neoliberalismo, Friedrich Hayek, Von Wiesse (o Leopold e o Ludwig), em tempo, conhecia tudo sobre a social democracia europeia, socialismo, 2ª, 3ª e 4ª internacional. É claro, Trotsky e Stalin, Smith e a fantástica obra A RIQUEZA DAS NAÇÕES, e François de Quesnay e seu Tableu Economique (li o original em Francês, em 1984).

Em suma, eu precisava entender os paradigmas das ciências sociais, da antropologia, da filosofia, da ciência política e um domínio ía me levando a outros. Por exemplo, quando cheguei na Antropologia, já conhecia Althusser e Marx, mas desconhecia Saussure e Pechet. Desconhecia a arqueologia das construções discursivas. Estava encantado, uma coisa me leva a outra. Exatamente, dos 27 aos 42 anos, fiz a melhor faculdade do mundo, mas para fazê-la precisei me afastar das viseiras da universidade tradicional. Estudei todos estes anos por conta, por isso digo que sou um pouco parecido com esses malucos que estudam por conta. Faço este exemplo, porque sou parecido com os  abandonam os estudos. Embora eu tenha cursado 2 faculdades, só consegui realizar meu sonho em busca do saber e do conhecimento, absolutamente andando por caminhos próprios, embora com um método bem delineado, a Dialética.

Ao longo da minha vida, são poucos os clássicos da literatura que não li e são poucos os paradigmas das ciências sociais e humanas que eu não domino.

Com a Dialética, com Harold Bloom (achei fantástico a junção da Dialética com a Cabala Judaica), entendo bem o Direito e o Estado, e, tendo estudado tanto o neoliberalismo, quanto a social-democracia e o socialismo, com as variâncias da revolução russa e chinesa, francesa, cubana, em especiais.

Passei por cinco faculdades para completar meu curso de Direito,  e, sociologia, só conclui as cadeiras do bacharelado, após minha expulsão da universidade do Vale do Rio do Sinos, via EAD; fiz um pós em letras, outro em sociologia rural.

O que me afastou da esquerda, basicamente, foi compreender o Estado tentacular, algo que sempre me pareceu incompatível com a liberdade. Quanto ao Estado, não acredito em fórmulas prontas, nem de um lado, nem de outro. Acredito que cada caso é um caso a ser construído, assim como os limites da intervenção e/ou da não intervenção.

2 – Não demorou muito tempo para eu perceber o controle que as corporações exerciam sobre o Estado, praticamente dominando tudo e fazendo a sociedade refém. Vi isso na constituinte de 1988, vi isso na constituinte estadual de 1989. A sociedade civil no Brasil é um blefe. As forças armadas, embora influentes, representam também o corporativismo. Somos uma sociedade dominada pelas corporações de servidores públicos, salvo raríssimas exceções de pessoas que se dispõem a empreenderem e os eternos trabalhadores.

3 – A esquerda apropriou-se do discurso e da defesa dos interesses corporativos. Não fala para a sociedade, fala para as corporações. Ou manipula os interesses dos trabalhadores da iniciativa privada. Em qualquer hipótese, uma lástima.

O curioso é que todos falam em nome da sociedade.

4 – Sou ideológico, mas quem mão é?

Volta e meio surgem as críticas de que faço um jornalismo e que minhas posições jurídicas são  ideológicas. Como fui acusado de ser ideológico, ao defender minha posição, lembro-me que, em 1985, escrevi um artigo no jornal Zero Hora, onde repliquei monsenhor Dalvit, que acusava o clero progressista de ser “ideológico”. A impressão que fiquei é que o Monsenhor não sabia o que era “ideologia”, do contrário, não pronunciaria tal disparate.

É claro que se os detratores que nos chamam de “ideológicos” se forem ler o livro “O que é Ideologia” da professora Marilena Chauí, vão ficar mais confusos ainda, afinal ela usa apenas uma visão de interpretação. O termo foi criado em l801, por Destut de Tracy para designar a análise das sensações das idéias, segundo o Método de Condillac. Isso aprendi com Abbagnano.

Aliás, o mesmo Abbagnano é quem, com melhor precisão, retoma o debate sobre os ideologistas franceses, que eram hostis a Napoleão, recebiam também a pecha. Os bonapartistas, de forma depreciativa, como os detratores locais, acusam seus opositores de “ideologistas” (PICAVET, Les idéoloques, Paris, 1891).

Porém, Antônio Gramsci, também teórico italiano, fez ao meu ver a melhor abordagem sobre o termo polisêmico e afirmou que todas as manifestações intelectuais, produzidas de forma individual ou coletiva, na arte, na literatura, na pintura, na dança e na música, eram manifestações ideológicas (Concepção Dialética da História). Claro fica, portanto, para Gramsci, que ideologia era afeta a uma visão integral de mundo e independia desta ser produzida pelas classes dominantes ou dominadas, visto que ideologia seria mesmo uma manifestação de ideias. Essa visão gramsciana, contudo, choca-se com os ideais do jovem Marx, de 26 anos, retomadas por Chauí, mas que mesmo assim afirma ser um “contrasenso falar em ideologia das classes dominadas visto que ideologia pressupõe dominação” (O que é ideologia).

Ou alguém acha mesmo, de sã consciência, que defender o desenvolvimentismo nas asas do neoliberalismo econômico mundial, não é uma posição ideológica? A posição é tão ideológica quanto a minha. Ao defenderem um modo de produção assentada na exploração das pessoas, ao defenderem a propriedade apenas as família tradicionais, também, também, estão defendendo uma posição vivamente ideológica.


O que nos difere é que eu sei que sou ideológico, sei o que é ideologia e não vejo nenhum mal nisso, pelo contrário, tenho lucidez para participar de um debate social sem medo de achar que sou diferente dos outros. O que fico perplexo é que esses outros, não sabem o que dizem, pois defendem posições tão ideológicas quanto as minhas. Tudo é ideológico, até quem se diz não ideológico

Minha constatação, nas ciências sociais e humanas, é que não existe neutralidade, todas as posições são ideológicas. O problema reside é em não saberem o conceito de ideologia.