O que se depreende da violência no Ceará?

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Esta crise na segurança pública do Estado do Ceará aponta, claramente, um contexto de confronto. De um lado, os traficantes com suas vozes de comando na sociedade; de outro, o aparato repressivo do Estado.

Fica evidenciado que o Estado está sendo desafiado. Da mesma evidência, fica claro a ineficácia das forças que emergem da sociedade e a vantagem que os traficantes estão levando, tornando o Estado, ineficiente.

As ações são claramente desafiadoras ao poder estatal e aí reside um componente político muito sério.

Trata-se de um levante (essa é a expressão que melhor define, em ciência política, o caso do Ceará). Um levante entre traficantes e sua influência na sociedade. Uma influência que desafia os Estados federados e que está mostrando, ao Brasil e ao mundo, a impotência do Estado e seus órgãos de repressão.

Este impasse coloca os pensadores e ideólogos da segurança pública numa encruzilhada, pois proporcional à repressão existe a ação dos bandidos. O general Mourão, com suas tradicionais idiotices, acusa o próprio governador Camilo. Ora, quem não vê que o Estado está paralisado, quem não vê que o turismo entrou num refluxo nunca visto, quem não vê que reina o medo e o caos e quem não vê que o governador Camilo é o maior interessado em conter o caos?

É claro que a voz de comando do tráfico tem influências sequer identificáveis. Saberão os especialistas entender a origem do uso de coquetéis molotovs? Saberão os especialistas explicar o porquê da força da voz de comando do tráfico? Será apenas o medo ou também somam-se outros elementos importantes, como a miséria, a desesperança, a falta de perspectiva de uma vida digna?

O exemplo que emerge do Ceará é indicativo de uma brutal separação na sociedade brasileira. Apenas a força bruta do aparato repressivo do Estado, aqui inclusas as forças estaduais e nacionais, é uma fórmula falida. Apenas a repressão, sem políticas públicas que apontem uma solução ou uma saída para milhares de jovens, adolescentes, jogados na miséria humana mais caótica, é uma fórmula falida. Esse contingente social sem sonhos, sem esperanças, marcado pela desilusão e desesperança, será sempre um contingente disposto a reagir contra o Estado.

O conflito ainda está restrito ao Ceará. Mas dele podemos tirar lições. A principal delas é que apenas a força bruta do Estado matando e reprimindo é falha, pois o Estado é um todo e não pode ser apenas a expressão da reação violenta contra a insurreição dos oprimidos. O Estado precisa de políticas públicas que respondam, minimamente, ao caos da fome, das doenças, da ausência de moradias, da ausência de escolas, da ausência de infra-estrutura urbana (água potável, esgotos …).

A situação de Fortaleza é idêntica à verificada em Rio Branco, Belém, Manaus, Macapá, Campo Grande, São Paulo, Rio de Janeiro … E se essas revoltas se expandirem para outros Estados? O que o aparato repressivo vai fazer? A rigor, ninguém sequer sabe de onde brota a violência no Ceará. Ela está entranhada na própria sociedade pauperizada. Os grandes traficantes, como em todo o lugar, estão em ambientes suntuosos, de alto padrão. Os órgãos de repressão, para justificarem sua razão de ser perante à sociedade, vivem de espetáculos em cima dos miseráveis. Mas – perguntar não ofende – por que não pegam os grandes agentes do tráfico? Por que não atacam as fontes financiadoras? Até quando vão seguir tomando o conjunto da sociedade como um bando de tolos?

Espero, como cidadão brasileiro, que a situação no Ceará não saia do controle. Espero que não haja o desencadear de um efeito cascata.

Duas lições centrais emergem desse quadro. Uma, o Estado/repressor funciona quando presente o Estado de bem estar social. O recrudescimento do processo repressivo, incentivado pelo discurso truculento do presidente Bolsonaro e seus discípulos, apenas semeia terror e poder levar à sociedade brasileira a um caos ainda maior. Violência gera violência. Os agentes do Estado precisam entender isso. Quem mata, também morre. Entre matar e morrer, todos caem no espiral da matança incontrolada.

A violência semeia ódios mútuos, gera a violência reativa e só isso explica o fenômeno do Ceará, pois se os traficantes não contassem com este vasto contingente humano, marcado pela miséria e pela desesperança, suas vozes de reação contra o Estado, não teriam eco. Logo, a lição número dois, é que o próprio Estado fornece aos traficantes as condições subjetivas do processo de levante contra o próprio Estado, por mais paradoxal que possa parecer.

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