Bases para um debate sobre o desenvolvimento socioeconômico de Santiago

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A base da economia santiaguense, historicamente, foi assentada no setor primário. Isso, entretanto, não quer dizer que não tivéssemos tentativas de ensaios industriais, mesmo que inexitosos, tivemo-os. A tradição oral registra que nos idos de 1922, tivemos uma grande fábrica de sabonete e derivados, de propriedade de José Piva. Da mesma forma, registros orais precários dão conta de grandes moinhos locais que atuavam decisivamente na industrialização da matéria-prima relacionada com a produção agrícola, especialmente o trigo. Na esteira, surge
na atualidade, o inimaginável: o prefeito Tiago Lacerda, na China, atrás de uma fábrica de rações. Não temos matéria-prima, não temos água, não temos energia, não temos esmagadora de grãos, duvido que os chineses embarquem nessa.

No ano de 2002, dia 05 de dezembro, publiquei um artigo intitulado A LIGA SANTIAGUENSE DE METAIS REPUGNANTES, sendo que naquela ocasião teci uma contundente crítica a ausência de registros históricos sérios, bem como a ausência de pesquisas capazes de nos fornecerem instrumentais teóricos fundamentados acerca de nossa própria história, afinal, mal sabemos quais foram os grandes ciclos econômicos de Santiago e região.

Genericamente, sabemos alguma coisa acerca da pecuária no Estado Novo, vagamente sobre período liberal-democrático de 46 a 64 e, finalmente, nos governos militares pós 64, especialmente o boom agrário com a cultura extensiva de soja, trigo, arroz e o fomento oficial, a leitura é mais clara, razão pela qual derivaremos dela em diante. Nem mesmo sobre o Moinho Santiaguense, raiz da Cooperativa Tritícola, temos registros e análises confiáveis.

Dos primórdios, conhecemos longos processos primários assentados na pecuária, ora com hegemonia da produção ovina, ora com a hegemonia da produção bovina.

É, da mesma forma, dessa ovinicultura expansiva que florescem as grandes raízes da cooperativa rural, que recebia e comercializava grandes quantidades de couros, pelegos e lãs. Entretanto, a luz do desenvolvimento econômico, fica claro dentro da perspectiva histórica, que essa cooperativa, apesar de pujante pela força da produção local, não passava de uma atravessadora e sua função de resumia a receber e revender a produção.

A cooperativa rural sempre foi um foco de produção política e de ideologia, tanto quanto a cooperativa tritícola. Embora, na cooperal, notássemos a presença de líderes de esquerda, entre eles, Valentim Cardoso da Silva, Níssio Castiel, Jéferson Silveira, Rubem Lang, entre outros, remanescente da velha guarda petebista, é notório que os mesmos nunca conseguiram controlar a máquina cooperativa por dentro, quando muito conseguiram compor com a direita, indicando Valentim Cardoso da Silva como diretor comercial, enquanto a presidência ficava sempre com um indicado pela ARENA.

Até hoje não se sabe por que tais cabeças, que geravam a cooperal, não pensaram em ampliar as atividades produtivas, por exemplo, com a construção de um frigorífico. Nem mesmo pequenas e médias cardarias foram concebidas como tentativa de ensaio industrial, visto que a lã era toda simplesmente vendida para fora. O mesmo raciocínio vale para a ausência de industrialização do couro, naquela época de abundância.

Embora tenhamos uma análise errada acerca dos fomentos por bancos públicos para a pecuária, foi à agricultura que ganhou maior visibilidade. Mas isso não quer dizer que os governos militares não tenham dado grandes fomentos e insumos subsidiados a atividade pecuária. A ideia de Delfim Neto de crescer para depois repartir o bolo, apenas gerou um distanciamento de classe muito grande, tornando os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Grandes fraudes marcaram essa época, do adubo papel da agricultura, às notas calçadas de insumos pecuários, um imbróglio onde quase todos eram cúmplices uns dos outros, esquerda e direita.

A verdade é que bastou uma pequena escalada inflacionária, com juros diferenciados, e a concepção assistencial-paternalista da cooperativa rural não resistiu a modernidade financeira e nem soube se ajustar às novas regras do mercado. Ruiu-se, assim, um dos grandes símbolos da pujança do município, gerando o desemprego direto e indireto de centenas de famílias e obrigando os produtores primários a ficarem reféns de novos e atravessadores ou a venderem sua produção em outras praças. De qualquer forma, uma fórmula arcaica de gestão, foi responsável pela desarticulação dessa cadeia primária ligada a pecuária.

No campo político-ideológico, a cooperativa rural produzia líderes políticos mais conservadores, mais reacionários e altamente identificados com a ditadura militar. Boa parte dos remanescentes da então ARENA 1 vinham de suas hostes. Já a Tritícola, também foco de fomentação político-ideológica, vinha com um outro perfil, nem tão conservador e nem tão reacionário. Mas nem por isso deixava de ser um outro símbolo das bases da economia municipal e daí derivavam-se outros tantos valores que marcaram nossa sociedade. Portanto, esse outro símbolo da pujança municipal, a cooperativa regional tritícola santiaguense, tem em seu histórico administrativo-gerencial descalabros e descontroles ainda piores que os da cooperativa rural, se é que se pode assim falar.

A própria natureza dessa atividade agrícola, quando em seu auge, no governo militar, foi marcada por fraudes, golpes contra instituições bancárias, falcatruas de grande monta envolvendo o famoso caso do adubo-papel que resultou na prisão de líderes da oposição, entre eles, Arizoli Gindri e Antenor Bazzana, na verdade injustiçados. Pois também essa concepção cooperativa da tritícola, sempre se reduziu a intermediar a compra e venda da produção e nunca houve – na prática – tentativas de redefinir valores agregados. Assim, nunca se importaram em implementar uma fábrica de óleos, uma fábrica de rações, um porto seco… e tudo sempre se resumiu a compra e venda da produção, malversação de recursos dos associados, liberações de empréstimos de forma totalmente irresponsável e desvinculada da realidade, em suma, de todos esses expedientes escandalosos que hoje vieram à tona.

Essa breve introdução é necessária à luz de uma reflexão que pretende levantar algumas discussões sobre as bases do desenvolvimento sócio-econômico de Santiago. Nossa economia municipal apresentada indicadores claros, com a fatia do comércio sendo inexpressiva perto dos serviços, com uma parcela expressiva de recursos jogados na economia com os salários dos funcionários públicos, sejam eles municipais, estaduais e federais, públicos ou privados. No que tange a indústria, o índice é vergonhoso e nem chega aos 10%.

Qualquer debate afeto a uma busca de redefinição, passa, necessariamente, pela análise de nossa estrutura fundiária e, ao contrário do que muitos pensam, temos uma grande concentração de pequenas e médias propriedades. Entretanto, não temos agroindústrias e nem uma política para esse setor.

O desemprego, em Santiago, atingiu níveis alarmantes. Todos se queixam que nos faltam empregos e que e dizem que é preciso industrializar Santiago. E aqui, inicia-se o grande debate e aquela perguntinha mágica: como? A ideia de Júlio Ruivo sempre foi a de que era necessário fomentar as cadeias produtivas locais, investindo na base primária local e suas respectivas matérias-primas. Parece-me, salvo melhor juízo, que essa é a ideologia dominante no PP santiaguense. Tiago Lacerda, quer ser diferente, por isso foi passear ornamentado de gaúcho na China comunista de Mao Tsé Tung. Acreditem: em busca de uma fabriqueta de rações.

Pretendo com esse breve ensaio demonstrar que duas questões são essenciais para o debate. A primeira delas, é que já perdemos oportunidades históricas de industrialização de nossa matéria-prima, especialmente quando do advento de concentração de poder nas cooperativas rural e tritícola. Nessa ocasião, o que pautou nossa mentalidade foi a mera intermediação de compra e venda. A segunda questão relevante nesse debate, é que o então prefeito José Francisco Gorski, ao ensejo da correta leitura que teve do desenvolvimento das forças produtivas locais, interveio na realidade econômica do município, fomentando a instalação da BRASPELCO como uma tentativa clara de redefinição do eixo econômico. Guilherme Bonotto, candidato das oposições em 2016, foi quem apresentou a melhor proposta de redefinição do eixo sócio-econômico de Santiago. Jogou com todas as premissas certas.

Chicão auspiciou jogar Santiago num ciclo desenvolvimentista e industrial, rompendo com o isolamento da região (adstrita ao setor primário e presa à velha conceptualização econômica) e imaginou atrair novos investimentos, pois a própria concepção industrial, em si mesma, exigiria incremento de infra-estrutura e demandas associadas. O raciocínio de Chicão e seu staff planejava a modernização do aeroporto, geração de emprego e renda na esteira da indústria, especialização de mão-de-obra local, incremento de arrecadação tributária e amplo aquecimento da economia, afinal seriam quase 500 empregos diretos e isso formaria um público consumidor com demandas que envolveriam desde imóveis, até vestuários e alimentos, entre outros.

A rigor, Chicão jogou com todas as premissas corretas. O fracasso do investimento, a rigor, não está associado a vontade do executivo municipal, que fez o que era possível. Mas, do empreendimento, deve ficar uma lição, pois a concepção do projeto BRASPELCO abria sérias críticas sobre eventuais entornos produtivos que não se formariam, era questionado, ademais, por trazer a matéria-prima de fora e também por ser uma tentativa brusca e desvinculada da base produtiva do município. É certo que fatores de economia e mercado internacional, mercado dolarizado, entre outros, contribuíram para o insucesso do empreendimento. O mesmo raciocínio vale para a fabriqueta de rações concebida pelo pior governo da história de Santiago: Tiago Lacerda, que quer uma fábrica ou fabriqueta sem apresentar matéria-prima, e onde falta tudo. Santiago tem sério problema de abastecimento de água. Falta água, milho, energia trifásica, esmagadora de grãos e – acreditem – faltou um debate sério com os setores produtivos e não houve debate sequer sobre um eventual arranjo produtivo. Cadeia produtiva é coisa que esses meninos com a cabeça no SEBRAE sequer entendem.

A atual crise financeira internacional começa a ter reflexos no município de Santiago. Estima-se que, aproximadamente, 12 mil pessoas vivam fora, por terem ido buscar trabalho formal no Vale do Sinos, Caxias e Bento, Alto e Baixo Vale do Taquari, região fumicultora da grande Santa Cruz, Vale do Sinos e até nos polos metais mecânicos de Ijuí, Horizontina e adjacências.

Assim, é dentro dessa perspectiva, nesse quadro, nessa conjuntura, que se começa a refletir sobre as bases para se criarem empregos locais e – supletivamente – emerge o debate sobre industrialização. O que nos salva, incrementando e fomentando o comércio local, são as folhas dos servidores militares da União e – em menor grau – do Estado federado e do ente municipal. Se fôssemos depender de nossa capacidade de articulação e inovação industrial, científica e tecnológica, meu Deus, chamem Olavo de Carvalho, que sabe tudo de tudo.

As análises históricas já nos mostraram que tivemos quadros propícios a tais investimentos agroindustriais e os deixamos completamente de lado, com a ascensão e queda da cooperativa rural e tritícola. Da mesma forma, do complexo quadro que se desenhou a partir do fracasso da BRASPELCO, é necessário extrairmos lições, pois ficou evidente que ensaio industrial sem ocupação da matéria-prima local e sem gerações de entornos afins, correm sérios riscos quando expostos a crises externas.

Hoje, é necessário pensarmos em ações integradas, envolvendo os centros de produção de saberes científicos e tecnológicos e a adoção de uma visão política que leve em conta as potencialidades locais. Do contrário, estaremos sempre fadados ao insucesso, seja por não sabermos ler corretamente os processos históricos e nem deles tirarmos as lições necessárias. Nesse contexto, o papel da URI deveria ser mais interventor, assim como das escolas técnicas, do fomento público e da urgente instalação de um núcleo que pensasse a produção científica e tecnológica em Santiago.

Nosso atraso está expresso na revelação bombástica de que a URI, finalmente, reconheceu os cursos EADs, o que sempre combateu. Entramos na telemática educacional com mais de uma década de atraso, assim como a fábrica de rações, essa com algumas décadas, que remontam os tempos áureos da cooperativa tritícola. Mas, nunca é tarde para ser feliz e sonhar, mesmo que seja um sonho ilusório. Afinal, a ilusão é irmã siamesa do vendedor de sonhos, sem ser Augusto Cury.

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