Amor e condenação

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Tenho uma curiosidade enorme para saber como são as relações de outros pais com suas filhas.

Sou pai de uma filha. Nina, tem 8 anos.

Julgo ser o amor mais lindo e mais perfeito do mundo. Somos separados, vivemos separados, fruto de um casamento desfeito. Mas noto minha filha cada vez mais amorosa, mais amável e mais dócil.

Sábado à noite, fiz-lhe mama e deitei-me na caminha ao lado. Nina começou então a me cercar. Vinha e me tapava, um beijo. Um afeto e um carinho, até que exclama:

– Pai, eu sinto tanta saudade de ti.
– Eu sinto tanta a tua falta.

Aquilo me doeu. Cortou-me de alto a baixo. Imagino como deva ser o sofrimento e a dor. Eu sinto o mesmo e travo uma luta interior para metabolizar tudo. Só que não consigo, imagino ela, tão novinha, tão tenra.

Dos oito anos de sua vidinha, 4 foram ao meu lado. 4 são separados.

Nesse período vivemos de tudo. Dores, lágrimas, separação.

Eu nunca mais fui o mesmo homem. Noto que Nina também não é a mesma pessoa.

È o peso da separação pai e filha. È a dor da falta, da saudade, e o convívio com a ausência, é como uma morte em vida, sabendo que a outra vida está viva.

Deve ser horrível a falta e a dor da saudade de uma inocente.

O pai separado é um eterno condenado. Ele carregará as dores da ausência até seu último dia na Terra. Ele se punirá constantemente pela formação que não pode dar a sua filha. Ele carregará a dor eterna em sua alma.

A criança viverá eternamente tateando incerta o vazio. Tentando assimilar a dor da falta e metabolizando a saudade e a dor da separação.

O carinho e o afeto, serão lembranças, revividas, mas logo sufocadas. A condenação imposta a criança, é a pior de todas.

A separação é uma tragédia surda, pior que a morte, pois uma vive se realimentando, e a outra, é definitiva. A morte, é mais fácil de ser assimilada.

Este é um debate que poucos fazem. Poucos entendem as dores dos filhos. Poucos entendem quando expressam falta e saudade. Eles choram e suas lágrimas vertem em suas almas.

Talvez a expressão facial seja a mais traidora, para quem julgue tudo pela aparência. A essência é a alma, é a lágrima que não se vê, ela corre da alma para a alma. Ela não verte como uma lágrima no olho.

O maior crime que cometemos na Humanidade é contra nossos próprios filhos. Quando sabemos que eles sofrem por nós, quando sabemos que somos responsáveis por suas lágrimas, dores, ausências e faltas.

Eu me sinto um criminoso pelas dores de minha filhinha. Choro todos os dias. Acordo com o peito sufocado. Sofro quieto, pois sei que este é meu fardo na face da Terra.

Oro e falo com Deus. Oro pela minha filha. E quando estou com ela, procuro ser pai e amor o tempo todo, talvez na ânsia de compensar o crime e em busca de redenção por ter feito a mais amável e a mais inocente das criaturas, sofrer e chorar em sua alma, por minha culpa.

Ser pai e viver condenado a viver longe de sua filha, é a maior condenação que um ser humano pode sofrer.

Como advogado, sei que a extensão desta pena é indescritível. Vivemos de momentos e vamos nos arrastando. São penas doloridas demais, às vezes, insuportáveis para um ser humano, com consciência.

Essa pena nunca terá fim. Ela está associada a minha consciência e o ser humano consciente e escravo de sua consciência, é quem mais assimila a extensão da pena e o cumprimento da dor.

E não há dor maior que essa e nem pena mais horrível que o sofrimento da falta e da saudade.

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