Sobre as declarações de Fernando Henrique Cardoso e as condições de um processo revolucionário no Brasil

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É claro. Devemos levar a sério as declarações do ex-presidente FHC – repercutidas na imprensa nacional e mundial – sobre as condições revolucionárias existentes no Brasil. Sociólogo, ex-presidente do país, certamente FHC sabe o que diz.

Entretanto, em minha modéstia, há tempos venho dizendo que estavam se criando e agora estão mesmo criadas as condições objetivas de um processo revolucionário em nosso país.

Porém, só condições objetivas não bastam. São condições objetivas: a crise na infra-estrutura econômica, a crise na superestrutura jurídica, do caos à anomia, do macarthismo judiciário à violação de direitos e garantias constitucionais, passando por uma crise ética e moral sem precedentes, que vai desde a banalização da morte até a crise de desrespeito total da população (não emprego o conceito jurídico de povo e sim demográfico) acerca de qualquer autoridade, de um praça guarnecendo a polis, passando pelo vereador, prefeito, deputados, enfim, membros dos poderes constituídos como um todo. A crise na Petrobrás, a ciranda financeira mundial, um governo central fraco e titubeante, as greves, o confronto de partidos com os poderes, a crise nas religiões, os escândalos, a imprensa corrompida, chega-se ao cúmulo de os traficantes evangélicos matarem os pais-de-santos traficantes ligados ao yorubá.

A miséria, a descrença, a desesperança, a desilusão, a pobreza material, enfim, tudo isso constituem-se em condições objetivas de um processo revolucionário.

Contudo, mesmo todas estas condições presentes no palco social, de nada valem sem as condições subjetivas de um processo revolucionário. E aqui reside minha discordância com FHC.

O que seriam tais condições subjetivas?

Simples, existindo as condições objetivas, alguém precisa canalizar a expressão destas, seriam os movimentos sociais, os partidos de esquerda ou de direita, as forças armadas, os grupos revolucionários, alguém capaz de capitalizar este sentimento e conduzir o país a uma revolução, entrando em sintonia com as aspirações das massas e das multidões da população, até aqui nadificadas pela coerção estatal.

Existem condições subjetivas no país?

É claro que não. Até a Nina sabe disso. O PT, que teve todas as chances de criar as propostas de revolução, foi um partido pequeno-burguês, quis governar dentro das regras do establishment e não se prestou nem para coptar as forças armadas (Chaves e Maduro deram de dez nos petistas), nem para criar alianças táticas com o judiciário; visando apenas a governabilidade, fez alianças com os maiores corruptos do país, afundou junto com as piores oligarquias nojentas do nordeste e do norte, passando pelo eixo Rio-SP. Jogou dentro das regras do sistema dominante. Caíram de podre, sem esboçar reação. Junto consigo, naufragaram os satélites, os partidos que sempre mamaram, socialistas e comunistas de botequim, CUT, MST, UNE e por aí afora.

Não têm força – hoje – nem de chamar uma greve geral. Tem o controle do aparelho, mas não a hegemonia das massas. Lula preso, desmoralizado por um juiz “a quo”, que decidiu brilhar para as capas de revistas e 15 minutos de fama em redes de TVs. Não basta acusar Moro, é preciso auto-crítica para reconhecer que o PT perdeu completamente a força, Dilma caiu com sopro do parlamento e num golpezinho de quarta categoria. Sem reação, tudo o que as lideranças petistas e de esquerda do país fazem, hoje, é gritar e gravar vídeos no facebook e no youtube.

Já a direita, mais louca e sem controle que a esquerda, descobriu-se num fundamentalismo religioso associado a arqueologia de um discurso militarista virulento, protótipo da poralouquice. Não sabem se são direita interventora ou liberais, aliás, sequer sabem a diferença entre um e outro. A neo-direita brasileira tem a cara do Rio do Janeiro e a bunda de São Paulo. Associar Bolsonaro a Le Pen é desconhecer que a direita francesa, xenófoba e racista, pelo menos tem um programa.

Os tucanos não representam mais um pensamento social-democrata para o país. Afundados com Aécio, atolados no pó, o santo patina, enquanto a PF todo o belo dia pega um tucano.

E as forças armadas?

Gostem ou não do que eu vou dizer, é a única força capaz de preencher as condições subjetivas de um processo revolucionário. Tem uma geração nova de generais, o Pujol é um deles, com cabeça, não são loucos como Bolsonaro, sabem do papel estratégico das forças armadas, mas – ao mesmo tempo – não têm coragem nem de derrubar Temer. Sabem que, embora preencham as condições subjetivas para deflagrar o processo revolucionário, ao mesmo tempo, temem pela governabilidade, lhes falta uma aliança com o povo (aqui no sentido constitucional da expressão), coisa que – contraditoriamente – Bolsonaro criou. Em suma, as forças armadas preenchem as condições subjetivas de forma muito anômala, e seu staff sabe disso, a começar pelos problemas que enfrentariam no descontrole da política internacional, com a retração dos investidores externos e – afinal – sabem que um fechamento à Fidel, seria hilário, senão tragicômico. Muito embora, sejamos francos, Trump não teve medo de sair pela tangente e andar na contramão da nova ordem mundial. Aliás, EUA e Reino Unido, e tudo indica que Alemanha e França, marcham a passos largos, para uma retomada do Estado Nacional … é de rir depois do Espaço Comum Europeu, do eurodólar, à desmoralização, que, aliás, afeta dos Tigres Asiáticos ao Nafta (natimorto nas fronteiras mexicanas) e ao Mercosul.

Interesses contraditórios, contradições insanáveis, reforma da previdência para os pobres, regimes previdenciários diferenciados entre o setor público e privado, queda na bolsa, escalada do dólar, só segurando-a com o Banco Central vendendo bilhões das reservas cambiais. Crise moral, crise política, crise de fé, nem os pastores mais convencem seus fiéis, levam Bolsonaro na marcha com Jesus e Lula é quem lidera as pesquisas entre os evangélicos, segundo o DATAFOLHA.

Em suma, concluo este breve texto dizendo que de nada adiantam as condições objetivas de um processo revolucionário, se não existem as subjetivas.

A seguir neste tranco, mais os vazamentos a conta-gotas da CIA, semeando medo nos militares, a tendência é a ampliação da baderna.

Não existe solução no caso brasileiro sem uma revolução.

A questão toda é: quem vai embalar o processo?

Quem vai ter coragem de dizer que Charles-Louis de Secondat, Barão de La Bréde e de Montesquieu morreu em 1689 e suas ideias precisam ser sepultadas? Um parlamento com a política corrupta, como a brasileira, só serve para extorsões, negociatas, propinagens, leilões de cargos e tudo que todos nós bem sabemos. Quem vai ter coragem de promover uma igualdade nos regimes previdenciários público e privado? Quem vai ter coragem de redefinir todo o poder judiciário nacional, começando pelo STF?

Perdão. Isso só com uma revolução, e muito grande.

Do contrário, Nina, que dia 04 desse mês completou 08 anos, estará com 50 anos, eu serei pó e tudo continuará com dantes no quartel de Abrantes, já sentenciou o General Jean Androche Junot, em 1807.

(escrito direto e sem revisão)

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